quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Crônicas...

Gary Hill -  Taking time from place

Um mergulho no vácuo.

Gary Hill é um artista plástico mundialmente conhecido que tem sua segunda grande exposição no Brasil. Norte americano de Los Angeles, cresceu com o sol, as praias, suas ondas e as calçadas para deslizar seu skate e escolheu o ambiente roqueiro grunge de Seattle para viver. Apaixonado por musica e poesia a biografia desse artista me levou a uma expectativa de exposição que se concretizou completamente diferente.

O exercício proposto nessa exposição é de constante movimento. A contemplação em si já faz mover. Mesmo de fora do espaço expositivo a obra de arte toma, toca e incomoda. O incômodo é claro e instantâneo, impede de ficar mais que o seu limite, é o exercício do  encontro do próprio. Pessoas passam mal, ficam irritadas, excitadas, felizes. Mas saímos do prumo. A exposição nos arranca do nosso próprio lugar, o lugar do conforto, a estabilidade. É uma crise interna que temos que lidar e fugir.

Numa época de crise, nada melhor que esse experimento. O prazer da exposição “Taking time form place” não está no gosto comum, no simples prazer da observação da obra de arte. O passeio frugal, descompromissado e distante é impossível. Entrar nessa exposição é ter obrigada a memória do amanhã e do desconhecido. O incômodo, o limite colocado não é psicológico, não vem de memória de outras vidas ou traumas de infância, o incômodo está na superfície, como a pedra jogada na beira do rio que muda a maré por alguns instantes.

Oco de pau que diz:


Eu sou madeira, beira


Boa, dá vau, triztriz


Risca certeira


Meio a meio o rio ri


Silencioso, sério


Nosso pai não diz, diz:


Risca terceira

Água da palavra


Água calada, pura


Água da palavra


Água de rosa dura


Proa da palavra


Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra


Entre as escuras duas


Margens da palavra


Clareira, luz madura


Rosa da palavra


Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri


Por entre as árvores da vida


O rio riu, ri


Por sob a risca da canoa


O rio riu, ri


O que ninguém jamais olvida


Ouvi, ouvi, ouvi


A voz das águas

Asa da palavra


Asa parada agora


Casa da palavra


Onde o silêncio mora


Brasa da palavra


A hora clara, nosso pai

Hora da palavra


Quando não se diz nada


Fora da palavra


Quando mais dentro aflora


Tora da palavra


Rio, pau enorme, nosso pai

A Terceira Margem do Rio

Caetano Veloso

Composição: Caetano Veloso/Milton Nascimento

 

Poesia sim, musica sim, mas expressa e impressa na experiência.

Passear pela exposição é necessário. Em Wall Piece  o show audiovisual é estroboscópico, impõe um ritmo fora do normal e o registro tanto auditivo quanto visual é dês-controlado. Mantendo-se no espaço as palavras tentam se unir e formar um texto, ou algo que se forme em conjunto - poema e poesia.

Ao lado Accordions [The Belsunce Recordings], o diário de uma viajem. Mais parece uma história contada, uma experiência, a impressão pessoal de alguém que foi para lá. Como a memória de  acontecimentos na visita de um lugar. O registro de tudo se move, as fotos de movem e os sons passeam de parede em parede, ficar parada não é uma opção. Com o corpo trabalhado sobe-se a escada para trabalhar mais olho e ouvido, Language Willing parece uma caixinha de musica, um som suave, que vem tomando forma devagar, muito parecido com o som da descoberta da linguagem dos bebês, quando a boca projeta som ao prazer, pelo simples fato de poder fazê-los; as mão que “tocam” e comandam os discos.

Em Viewer o descanso, a impressão de descanso áudio visual... o trabalho  nas outras obras foi tanto que a sensibilidade nos leva a nos impressionarmos com todos aqueles homens expostos, os olhos se encontram com os nossos e o mal estar em estarmos sendo observados é mutuo. Alguém me seguiu com os olhos, o que será que ele quer me dizer?

Na última sala, já como obra de arte (observada, sacudida, bagunçada, refletida), o mergulho final: Up Against Down. Dentro do corpo do artista, não, dentro do corpo da obra de arte. A observação é de força contra o nada, a sensação de força contra o espectador, calafrios, enjôo, mergulho em apnéia para o vazio.

Ao sair, aí sim, O Prazer. O prazer dessa exposição está fora dela, na necessidade de ter passado por esse esforço para senti-lo (a), está no alivio da força, na submersão dos sentidos. 

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