quarta-feira, 7 de abril de 2010

Decidi

Muita coisa aconteceu, estou mudando, andando andando...
Pensei em pegar esse blog e mudar, colocar ele inteiro no meu outro blog, o mulherconte, mas achei injusto. Injusto comigo e principalmente com esse blog. Preparei tantas coisas legais para ele... fiquei mais inteligente, mais objetiva, mais difícil, bem mais complicada.
Sou uma pessoa de gavetas, mulher cômoda mesmo, gosto de reservar espaços e comportamentos para cada coisa de minha vida.
Conforto agora que decidi.
Aqui, continuo trabalhando! E ponto final.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bate e volta

Poucas coisas no mundo me fazem parar!


Dessa vez fui eu mesma - http://mulherconte.blogspot.com/2009/10/vida-imita-ou-e-imitada.html
Eita vida doida! Viva ela.
Já voltei! Muito a fazer!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Festival do Rio

Já são dez anos, muita coisa boa já vivi, muita coisa já passei aqui nesse lugar do público, a sala de cinema. Sou de dentro e de fora, trabalho muito, assisto pouco (para o que eu quereria) e não deixo nunca de querer mais.
Aqui faço amigos novos, me aproximo mais de velhos amigos e faço diferença dentro desse evento. Estou tanto nele quanto ele está em mim.
Obrigada por esses dez anos, 
de nada por esses dez anos!
Até ano que vem!


DongBei DongBei - uma chinesa do norte
Zou Peng
China 2009, 81'

Festival do Rio - Reunião de Equipe!

Família Premiére Brasi!
Amo vocês!

Festival do Rio - meu time

Não posso deixar de agradecer a minha equipe amada!
Esse ano meus assistentes e voluntários foram maravilhosos!
Muito obrigada por tudo, vocês são o máximo!


Suzana! Adorei ver você aqui nesse Festival, amiga pra toda hora, até na hora em que não posso estar!

Queridos, mais que queridos, Eduardo, Guilherme, Camila e Charlotte, incansáveis!
Parabéns...
Demos muita risada junto, mesmo sem parar de trabalhar um segundo.
Vocês são um show!
Não  posso deixar de celebrar e parabenizar três figuras ótimas que não estão aqui mas ralaram tanto quanto essa Turma (com um super T) - 
Artur, Heitor e Natália! Esses três comeram o pão que a Gávea amassou, dormiram só Deus sabe como e nem conseguiram ser fotografados.
Adorei trabalhar com vocês!

Meus pintinhos venham cá!


Festival do Rio - Café com Curtas!


Esse dia é muito legal, de manhã, no Parque Lage, o café com os cineastas que mais ousam, experimentam e estão livres para criar - os CURTAMETRAGISTAS!
Com o apoio do Porta Curtas, começamos muito bem esse dia de Festival.
Delícia, obrigada Porta Curtas, ótimo café da manhã.
Saímos de lá deliciados e vestindo a camisa do cinema!


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Festival do Rio

Armário Cinematográfico, fôlego fôlego!





Festival do Rio

2009!!!!!!!!!
Presidente do TEC (tribunal eleitoral cinematográfico!)!
De novo e mais uma vez!!!!
Correria, mil figurinos e bom humor 24 horas por dia.
Gata! Vai que é tua!

Festival do Rio

Pra quem adora cinema!



Há dez anos atrás entrei nessa empreitada como voluntária. O Festival do Rio estava em sua primeira edição e eu cresci com ele. Adoro fazer parte dessa história! Viva o cinema!
Faço e fiz tudo por amor!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Crônicas...

Gary Hill -  Taking time from place

Um mergulho no vácuo.

Gary Hill é um artista plástico mundialmente conhecido que tem sua segunda grande exposição no Brasil. Norte americano de Los Angeles, cresceu com o sol, as praias, suas ondas e as calçadas para deslizar seu skate e escolheu o ambiente roqueiro grunge de Seattle para viver. Apaixonado por musica e poesia a biografia desse artista me levou a uma expectativa de exposição que se concretizou completamente diferente.

O exercício proposto nessa exposição é de constante movimento. A contemplação em si já faz mover. Mesmo de fora do espaço expositivo a obra de arte toma, toca e incomoda. O incômodo é claro e instantâneo, impede de ficar mais que o seu limite, é o exercício do  encontro do próprio. Pessoas passam mal, ficam irritadas, excitadas, felizes. Mas saímos do prumo. A exposição nos arranca do nosso próprio lugar, o lugar do conforto, a estabilidade. É uma crise interna que temos que lidar e fugir.

Numa época de crise, nada melhor que esse experimento. O prazer da exposição “Taking time form place” não está no gosto comum, no simples prazer da observação da obra de arte. O passeio frugal, descompromissado e distante é impossível. Entrar nessa exposição é ter obrigada a memória do amanhã e do desconhecido. O incômodo, o limite colocado não é psicológico, não vem de memória de outras vidas ou traumas de infância, o incômodo está na superfície, como a pedra jogada na beira do rio que muda a maré por alguns instantes.

Oco de pau que diz:


Eu sou madeira, beira


Boa, dá vau, triztriz


Risca certeira


Meio a meio o rio ri


Silencioso, sério


Nosso pai não diz, diz:


Risca terceira

Água da palavra


Água calada, pura


Água da palavra


Água de rosa dura


Proa da palavra


Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra


Entre as escuras duas


Margens da palavra


Clareira, luz madura


Rosa da palavra


Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri


Por entre as árvores da vida


O rio riu, ri


Por sob a risca da canoa


O rio riu, ri


O que ninguém jamais olvida


Ouvi, ouvi, ouvi


A voz das águas

Asa da palavra


Asa parada agora


Casa da palavra


Onde o silêncio mora


Brasa da palavra


A hora clara, nosso pai

Hora da palavra


Quando não se diz nada


Fora da palavra


Quando mais dentro aflora


Tora da palavra


Rio, pau enorme, nosso pai

A Terceira Margem do Rio

Caetano Veloso

Composição: Caetano Veloso/Milton Nascimento

 

Poesia sim, musica sim, mas expressa e impressa na experiência.

Passear pela exposição é necessário. Em Wall Piece  o show audiovisual é estroboscópico, impõe um ritmo fora do normal e o registro tanto auditivo quanto visual é dês-controlado. Mantendo-se no espaço as palavras tentam se unir e formar um texto, ou algo que se forme em conjunto - poema e poesia.

Ao lado Accordions [The Belsunce Recordings], o diário de uma viajem. Mais parece uma história contada, uma experiência, a impressão pessoal de alguém que foi para lá. Como a memória de  acontecimentos na visita de um lugar. O registro de tudo se move, as fotos de movem e os sons passeam de parede em parede, ficar parada não é uma opção. Com o corpo trabalhado sobe-se a escada para trabalhar mais olho e ouvido, Language Willing parece uma caixinha de musica, um som suave, que vem tomando forma devagar, muito parecido com o som da descoberta da linguagem dos bebês, quando a boca projeta som ao prazer, pelo simples fato de poder fazê-los; as mão que “tocam” e comandam os discos.

Em Viewer o descanso, a impressão de descanso áudio visual... o trabalho  nas outras obras foi tanto que a sensibilidade nos leva a nos impressionarmos com todos aqueles homens expostos, os olhos se encontram com os nossos e o mal estar em estarmos sendo observados é mutuo. Alguém me seguiu com os olhos, o que será que ele quer me dizer?

Na última sala, já como obra de arte (observada, sacudida, bagunçada, refletida), o mergulho final: Up Against Down. Dentro do corpo do artista, não, dentro do corpo da obra de arte. A observação é de força contra o nada, a sensação de força contra o espectador, calafrios, enjôo, mergulho em apnéia para o vazio.

Ao sair, aí sim, O Prazer. O prazer dessa exposição está fora dela, na necessidade de ter passado por esse esforço para senti-lo (a), está no alivio da força, na submersão dos sentidos. 

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Da série passado bom!

Panorama de Dança
2006
Foi uma experiência fantástica no campo profissional, nunca havia trabalhado antes em um evento de dança e muito menos ocupando tantos espaços.
Fui Produtora Externa, em suma, toda a produção de rua era por minha conta, todos os teatros e espaços a serem usados no festiva.
Para melhorar Coordenei o dia de comemoração dos quinze anos do festival: 15X15X15.
Maravilha, descobri mais sobre dança na contemporaneidade e com se trabalhar muito e não morrer.
Foi esse festival que mostrou que tenho pique imaginação para trabalhar bem em muitos campos e posso me surpreender com capacidade de imaginação humana.
Nosso borogodó não fica só no samba, mas de todos os espetáculos que assisti e trabalhei o que mais me impressionou do grupo internacional foi João Fiadeiro no Teatro Nelson Rodrigues dentro do Caixa Cultural com o espetéculo "I am here".
Viva a arte contemporânea!
I AM HERE by João Fiadeiro
Premiere_ Centre Georges Pompidou, Paris, 29th, 30th and 31st October 2003.
Conception, choreography and interpretation João Fiadeiro
Lights design and Video Daniel Demont
Set design Walter Lauterer
Music Helena Almeida (extracts of "Vê-me..." (Look at me...), 1979)
Sound design noid aka Arnold Haberl
Dramaturgy João Fiadeiro and Marie Mignot
Rehearsal assistants João Galante and Ana Borralho
Production RE.AL
Coproduction Centre National de la Danse, Centre Georges Pompidou/Les Spectacles Vivants, Fundação Calouste Gulbenkian / Délégation en France,
Centro Cultural de Belém / Centro de Exposições, RE.AL

RE.AL, structure financed by DGArtes (General Direction of the Arts)/ MC (Portuguese Ministry of Culture)
With the support of the Centre Chorégraphique National de Montpellier Languedoc-Roussillon and the Centro Coreográfico de Montemor-o-Novo / Espaço do Tempo,
Lusitânia Companhia, Lisantigo

Duration 60 minutes
Classification all age
Target audience general
------------------------
JOÃO FIADEIRO
Paris, 1965.
Lives and works in Lisbon. 

His early dance training occurred between 1983 and 1988, which was in the techniques of classical dance and modern dance, which he developed at the Ballet Gulbenkian (Lisbon) and at the Peridance Center (New York). In 1988, through a scholarship from the Jacob's Pillow Festival, in Massachussets, USA, he made contact with the American postmodern movement, which radically changed his references and practices. He then focused on the improvisation and composition techniques born with that movement, which he examined thoroughly in numerous workshops both in Berlin and Lisbon. Between 1986 and 1989, Fiadeiro worked as a dancer with the Companhia de Dança de Lisboa (Lisbon Dance Company) and the Ballet Gulbenkian, where he started his choreographic work. 

In 1990, he created the RE.AL Company, an organisation that has been working in the area of the creation and circulation of contemporary dance performances, organisation of laboratorial-like events and the development of initiatives related to artistic research. 

In 1995, he began the systematisation of the Real Time Composition method, which supports, sustains and determines his entire activity as an artist, teacher and researcher. In the year 2000, in the midst of RE.AL, he promoted the constitution of a group of performers, theorists and artistic collaborators who have decisively contributed to the method's outline and range, in addition to applying the method in the making of their own projects. By their influence and contribution, the following people are readily acknowledged: the performers -- creators Cláudia Dias, Márçia Lança, Helga Guszner and Tiago Guedes, the plastic artists Gustavo Sumpta and Walter Lauterer, the composer Arnold Haberl, the researcher Paula Caspão, the dramatist Joris Lacoste, the journalist Rui Catalão and the collaborators David- Alexandre Guéniot and Marie Mignot. This work has been developed at the Atelier RE.AL, head-office of the Company, or, at the invitation of international entities, through research ateliers, workshops dedicated to the application of the method and creation projects. Of these, Fiadeiro highlights "Plano para identificar o centro" (1989), "Retrato da Memória enquanto peso Morto" (1990), "Branco Sujo" (1993), "Self(ish)-Portrait" (1995), "O desejo ardente deve ser acompanhado por uma vontade firme" (1995), "I am sitting in a room different from the one you are in now" (1997), "O que eu sou não fui sozinho" (2000), "Existência" (2002) and "I Am Here"(2003), which were performed all over Europe, the United States of America, Canada and Brazil. He also acknowledges the plays "Waiting for Godot" by Samuel Beckett, in the year 2000, "4:48Psychosis" by Sarah Kane, in 2001 and "Night Songs" by Jon Fosse in 2004. João Fiadeiro staged these plays at the invitation of the theatre company Artistas Unidos. 

Throughout the course of his work, he has established a close collaboration with various artists and contemporary thinkers, namely Jorge Silva Melo, Marta Wengorovius, Pedro Costa, Vítor Rua, Nuno Rebelo, Miguel Azguime, André Lepecki and Mark Tompkins, who have had great influence on his work.

terça-feira, 26 de maio de 2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A máquina


Fazendo, fazendo!



E agora pronto e passeando!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Na Câmara!


Na entrada do Oi Futuro, experiência única!
No início do ano de 2009, um dos arte educadores, Hugo Richard construiu uma câmara escura. Nela podemos viver a experiência fotográfica, conseguimos ver a paisagem de fora dentro desse balão preto, cheio de ar.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Sophie Calle




O escritor Paul Auster escreveu o Livro "Leviatã" inspirado em Sophie Calle.
Primeiro capítulo - dá vontade de ler todo o livro!
Capítulo 1 -

Seis dias atrás, um homem morreu em uma explosão à beira de uma estrada no norte de Wisconsin. Não houve testemunhas, mas parece que ele estava sentado na grama junto a seu carro estacionado quando a bomba que montava detonou por acidente. Segundo o relatório da perícia divulgado há pouco, o homem teve morte instantânea. Seu corpo explodiu em inúmeros pedacinhos, e fragmentos do seu cadáver foram encontrados a até quinze metros do local da explosão. Até hoje (4 de julho de 1990), ninguém parece ter a menor idéia de quem era o morto. O FBI, trabalhando em conjunto com a polícia local e agentes do Departamento de Álcool, Tabaco e Armas, deu início a suas investigações com uma busca no carro, um Dodge azul de sete anos, com placa de Illinois, mas logo constataram que o automóvel era roubado - surrupiado de um estacionamento em Joliet, no dia 12 de junho, em plena luz do dia. O mesmo aconteceu quando examinaram o conteúdo da carteira do homem, que por um milagre resistira mais ou menos incólume à explosão. Pensaram que haviam topado com uma rica fonte de pistas - carteira de motorista, número do Seguro Social, cartões de crédito -, mas, assim que submeteram esses documentos ao computador, um a um todos se revelaram ou falsos ou roubados. Impressões digitais seriam o próximo passo, mas no caso não havia impressões digitais, uma vez que as mãos do homem foram destruídas pela bomba. O carro tampouco os ajudou em nada. O Dodge se convertera em uma massa de aço carbonizado e plástico derretido e, apesar de seus esforços, não foi possível encontrar nele nenhuma impressão digital. Talvez venham a ter mais sorte com os dentes do homem, supondo que haja dentes em número suficiente para se poder trabalhar, mas isso vai demandar certo tempo, talvez até vários meses. No fim, não há dúvida de que vão pensar em alguma coisa, mas, até que consigam determinar a identidade da vítima dilacerada, eles não têm como apresentar à justiça um caso bem fundamentado.

No que me diz respeito, quanto mais demorar, melhor. A história que tenho para contar é bem complicada e, a menos que eu a conclua antes que eles apareçam com a solução, as palavras que estou prestes a escrever não vão significar nada. Uma vez revelado o segredo, vão espalhar todo tipo de mentira, distorções repulsivas vão circular nos jornais e revistas, e, em questão de dias, a reputação de um homem será destruída. Não é que eu queira justificar o que esse homem fez, mas, como ele não está mais em condições de se defender sozinho, o mínimo que posso fazer é explicar quem era e apresentar a história verdadeira de como ele foi parar naquela estrada no norte de Wisconsin. É por isso que tenho de trabalhar ligeiro: para estar pronto para eles quando a hora chegar. Se por algum acaso o mistério permanecer sem solução, vou simplesmente guardar para mim o que escrevi, e ninguém precisará saber nada a respeito. Este seria o melhor desfecho possível: um final perfeito, nem uma palavra enunciada, de uma parte ou de outra. Mas não devo contar com isso. Para fazer o que é preciso, tenho de supor que já estão fechando o cerco em torno dele, que mais cedo ou mais tarde vão descobrir quem era. E não só quando eu houver tido tempo para concluir isto aqui - mas a qualquer momento, a qualquer momento a partir de agora.

No dia após a explosão, as agências de notícias trouxeram a público um breve artigo sobre o fato. Era uma dessas matérias enigmáticas de dois parágrafos que ficam enterradas no meio no jornal, mas calhou de eu dar com os olhos nela no New York Times enquanto almoçava, naquela tarde. De forma quase inevitável, me pus a pensar em Benjamin Sachs. Não havia na matéria nada que apontasse para ele de maneira precisa, por pouco que fosse, mas ao mesmo tempo tudo parecia se encaixar. Não nos falávamos fazia quase um ano, mas em nossa última conversa Benjamin dissera o bastante para me convencer de que estava em sérios apuros, em marcha acelerada rumo a alguma calamidade obscura e inominável. Se isso soa muito vago, eu poderia acrescentar que ele também falou a respeito de bombas, na verdade falou interminavelmente sobre o assunto durante sua visita e, nos onze meses seguintes, andei com esse temor dentro mim - de que ia se matar, de que um dia eu ia abrir o jornal e ler que o meu amigo se fizera explodir. A essa altura, não passava de uma intuição desenfreada, um desses saltos loucos para o vazio e, no entanto, uma vez que a idéia entrou na minha cabeça, não consegui mais me livrar dela. Assim, dois dias depois de passar os olhos na matéria no jornal, dois agentes do FBI vieram bater à minha porta. No instante em que declararam quem eram, compreendi que eu estava certo. Sachs era o homem que se fizera explodir. Não podia haver a menor dúvida. Sachs estava morto e agora o único modo de eu ajudá-lo era guardar a notícia da sua morte para mim mesmo.

Foi, provavelmente, um lance de sorte eu ter lido a matéria no jornal naquele momento, embora me lembre de, na ocasião, desejar não ter visto nada. Pelo menos, tive dois dias para assimilar o choque. Quando os homens do FBI apareceram aqui para fazer suas perguntas, eu já estava preparado para elas e isso ajudou a me manter sob controle. Além do mais, foi bastante oportuno o fato de terem se passado mais quarenta e oito horas até eles conseguirem me rastrear. Entre os objetos recuperados da carteira de Sachs, parece que havia uma tira de papel com minhas iniciais e o número do meu telefone. Foi assim que resolveram me procurar, mas, para minha sorte, o número era o do meu telefone de Nova York, e fazia dez dias que eu estava em Vermont, com minha família, em uma casa alugada, onde pretendíamos passar o resto do verão. Deus sabe com quantas pessoas tiveram de falar antes de descobrir que eu estava aqui. Se menciono, de passagem, que esta casa pertence à ex-esposa de Sachs é apenas para dar um exemplo de como essa história é irremediavelmente complexa e emaranhada.

Fiz o melhor que pude para bancar o bobo diante deles, para revelar o mínimo possível. Não, disse eu, não li a matéria no jornal. Eu não sabia nada sobre bombas, carros roubados, estradas em ermas regiões rurais do Wisconsin. Eu era escritor, expliquei, um homem que escrevia romances para ganhar a vida e, caso eles quisessem conferir quem eu era de fato, que fossem em frente, tudo bem - mas isso não iria ajudá-los em nada; no caso, só iam perder tempo. É provável, responderam, mas e quanto à tira de papel na carteira do morto? Não estavam tentando me acusar de nada, mas o fato de ele levar consigo o número do meu telefone parecia provar que existia uma ligação entre nós. Eu tinha de admitir isso, não tinha? Sim, respondi, é claro que sim, mas só porque parecia ser verdade não significava que fosse mesmo verdade. Havia mil maneiras pelas quais aquele homem poderia ter conseguido o número do meu telefone. Eu tinha amigos espalhados pelo mundo todo e qualquer um deles poderia dar o meu número a um estranho. Talvez esse estranho tivesse entregado o número para outro estranho que, por sua vez, o entregara ainda para um outro estranho. Pode ser, retrucaram, mas por que alguém levaria consigo o número de telefone de uma pessoa que não conhece? Porque sou escritor, respondi. Ah é, disseram, e que diferença isso faz? Porque meus livros são publicados, expliquei. As pessoas os lêem, e não tenho a mínima idéia de quem são essas pessoas. Mesmo sem saber disso, entro na vida de desconhecidos e, enquanto têm o meu livro nas mãos, minhas palavras são a única realidade que existe para eles. Isto é normal, responderam os homens do FBI, é assim que acontece com os livros. Certo, admiti, é assim que acontece, mas às vezes acontece também de algumas dessas pessoas serem doidas. Lêem o seu livro e alguma coisa nele toca fundo na alma delas. Sem mais nem menos, imaginam que você tem tudo a ver com elas, que você é o único amigo que têm no mundo. Para ilustrar o meu argumento, apresentei-lhes vários exemplos - todos verdadeiros, todos retirados da minha experiência pessoal. As cartas desequilibradas, os telefonemas às três da madrugada, as ameaças anônimas. Ainda no ano passado, prossegui, descobri que uma pessoa andava por aí fingindo ser eu - respondia cartas em meu nome, entrava em livrarias e autografava meus livros, pairava como uma sombra maléfica nas margens da minha vida. Um livro é um objeto misterioso, falei, e, uma vez que comece a circular pelo mundo, qualquer coisa pode acontecer. Todo tipo de patifaria pode ser posto em prática, e não existe coisa alguma que você possa fazer a respeito. Para o bem ou para o mal, a situação está totalmente fora do seu controle.

Não sei se acharam minhas negativas convincentes ou não. Tendo a pensar que não, mas, mesmo que não tenham acreditado em nenhuma palavra do que eu disse, é possível que com minha estratégia eu tenha ganhado certo tempo. Levando em conta que eu jamais havia conversado com um agente do FBI, não me sinto muito mal diante da maneira como me conduzi durante a entrevista. Estava calmo, fui educado, consegui projetar a combinação adequada de desamparo e perplexidade. Só isso já seria um triunfo considerável para mim. Em termos gerais, não tenho um talento lá muito grande para imposturas e, apesar de meus esforços ao longo dos anos, raramente enganei alguém acerca do que quer que fosse. Se consegui levar a efeito uma representação convincente anteontem, os homens do FBI foram, pelo menos em parte, responsáveis por isso. Não tanto por alguma coisa que tivessem dito mas antes por sua aparência, pelo jeito como se vestiram para seus papéis, com absoluta perfeição, confirmando em todos os detalhes a aparência que eu sempre imaginara para homens do FBI: ternos leves de verão, sapatos tipo lancha, reforçados, camisas que não precisam ser passadas, óculos escuros de piloto de avião. Eram, por assim dizer, os óculos escuros protocolares e davam à cena um cunho artificial, como se os homens que os usavam fossem meros atores, figurantes contratados para representar um papel minúsculo em algum filme barato. Tudo isso era estranhamente reconfortante para mim e, quando relembro o caso agora, compreendo como aquela cena de irrealidade trabalhou em meu favor. Permitiu-me pensar em mim mesmo também como um ator e, uma vez que eu me tornara outra pessoa, de repente tinha o direito de enganá-los, de mentir sem a mais tênue dor na consciência.

Contudo eles não eram burros. Um tinha quarenta e poucos anos e o outro era bem mais jovem, talvez tivesse só vinte e cinco ou vinte e seis anos, mas ambos tinham nos olhos certa expressão que me manteve em guarda o tempo todo em que estiveram aqui. É difícil apontar com exatidão o que havia de tão ameaçador naquele olhar, mas creio que tinha alguma coisa a ver com sua opacidade, sua recusa em se expor, como se eles vissem tudo e nada ao mesmo tempo. Aquele olhar deixava transparecer tão pouca coisa que eu nunca conseguia saber ao certo o que cada um dos dois homens pensava. Seus olhos eram, de algum modo, demasiado pacientes, muito bem adestrados para sugerir indiferença, mas, a despeito de tudo isso, vigilantes, implacavelmente vigilantes, na verdade, como se tivessem sido treinados para fazer você sentir-se incomodado, para deixar você consciente de suas faltas e transgressões, para fazer você se revirar todo por baixo da pele. Seus nomes eram Worthy e Harris, mas esqueci quem era quem. Como espécimes físicos, eram desconcertantemente parecidos, quase como se fossem uma versão mais jovem e uma versão mais velha da mesma pessoa: altos, mas não altos demais; corpulentos, mas não corpulentos demais; cabelo ruivo, olhos azuis, mãos maciças com unhas impecavelmente limpas. É verdade que seus estilos de conversa eram distintos, mas não quero confiar demais em uma primeira impressão. Pelo que percebi, trabalham um de cada vez, alternam seus papéis em um contínuo vaivém a qualquer instante que julguem apropriado. Na visita que me fizeram, dois dias atrás, o mais novo representou o papel do bruto. Suas perguntas eram bastante ríspidas e ele parecia levar seu trabalho a ferro e fogo, raramente deixava escapar um sorriso, por exemplo, e me tratou com uma formalidade que às vezes beirava o sarcasmo e a irritação. O mais velho se mostrou mais descontraído e gentil, mais disposto a deixar a conversa seguir seu curso natural. Sem dúvida, é mais perigoso por causa disso, mas tenho de admitir que conversar com ele não foi totalmente desagradável. Quando comecei a lhe contar a respeito de algumas reações estapafúrdias aos meus livros, pude ver que o assunto lhe interessava e ele me deixou prosseguir em minha digressão por mais tempo do que eu mesmo havia esperado. Suponho que estivesse me avaliando, me estimulando a divagar para poder formar alguma idéia de quem eu era e de como minha mente trabalhava, mas, quando entrei no assunto do tal impostor, ele de fato se ofereceu para começar uma investigação do caso para mim. Isso podia ser um truque, é claro, mas por algum motivo duvido que fosse. Não preciso acrescentar que recusei sua oferta, mas, se as circunstâncias fossem diferentes, na certa eu teria pensado duas vezes na possibilidade de aceitar sua ajuda. É uma coisa que tem me perseguido feito uma praga há muito tempo, e eu adoraria imensamente pôr essa questão em pratos limpos.
- Não leio muitos romances - disse o agente. - Parece que nunca tenho tempo para isso.
- Não, não é mesmo muita gente que lê romances - comentei.
- Mas os seus devem ser muito bons. Se não fossem, duvido que você ficasse tão preocupado com isso.
- Talvez eu me preocupe porque eles são ruins. Todo mundo é crítico literário hoje em dia. Se a pessoa não gosta de um livro, vai até lá e ameaça o autor. Existe certa lógica nessa abordagem. Obrigue esse sacana a pagar pelo que fez a você.
- Acho que era melhor eu ir para casa e ler um de seus romances - disse ele. - Para entender de onde vem toda essa encrenca. Você não se importa, não é?
- Claro que não. É para isso que os livros estão nas livrarias. Assim as pessoas podem ler.

Foi um modo curioso de concluir a visita - anotar os títulos de meus livros para um agente do FBI. Mesmo agora, me atormento no esforço de tentar saber o que ele procurava. Talvez ele ache que vai encontrar algumas pistas em meus livros, ou talvez seja apenas um jeito sutil de me dizer que vai voltar, que ainda não deu por encerrada sua questão comigo. Afinal, sou a única pista que eles têm e, se adotarem o pressuposto de que menti, não vão me esquecer tão cedo. Além do mais, não tenho a menor idéia do que possam estar pensando. Parece improvável que me considerem um terrorista, mas digo isso apenas porque sei que não sou. Não sabem de nada e, portanto, podiam estar trabalhando com essa hipótese, procurando sofregamente alguma coisa que me ligasse à bomba que detonou em Wisconsin, semana passada. E mesmo que não estejam, tenho de reconhecer o fato de que vão ficar no meu pé ainda por um longo tempo. Farão perguntas, vasculharão minha vida, descobrirão quem são os meus amigos e, mais cedo ou mais tarde, o nome de Sachs virá à tona. Em outras palavras, o tempo todo que estou aqui em Vermont escrevendo esta história, eles por sua vez estarão ocupados escrevendo a deles. Será a minha história e, assim que a tiverem concluído, eles vão saber sobre mim tanto quanto eu mesmo sei.

Pierrick Sorin - teatro ótico

quinta-feira, 16 de abril de 2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

MEMENTO MORI

MEMENTO MORI

Memento mori é uma expressão latina que significa algo como "lembra-te homem que morrerás um dia" ou "lembra-te de que vais morrer".
Wikipédia – agosto 2008.

Lembre-se de que não vais morrer.
Lembre-se de que não, não vais morrer. Por mais que se acabe o corpo, a mente, o todo, o mundo, não vais morrer.
Fica, fica tua e minha e de todos os que já viveram e que ainda viverão. Fica. Fica tudo de todos até que chegue o todo. O Total de todo mundo e ficamos nós! Todos nos nós, nossos nós que fabricamos desde o encontro, o primeiro encontro. De molécula.
Lembre-se de que não morrerás!

A famigerada frase dita pelo escravo ao filósofo hoje não faz sentido. Estamos em evolutivo processo de eternização. Nos tornando amatéria.
Desde o início da humanidade existiu a tentativa de superação da morte. De mágicos, alquímicos e médicos à sublimação religiosa e a certeza da permanência como energia que não pára de circula e muda de habitação.
Não me importo em ser molécula, nem um aglomerado dela. Mas percebo e prefiro os registros que tem me desmanchado enquanto personalidade e unidade. Agora cada um pode continuar sendo nesse mundo tátil.
A fotografia começou assim. O registro visto é tão similar ao que percebemos com os olhos que nos eterniza naquele momento de maneira definitiva (as técnicas de conservação são cada vez mais impressionantes) e verdadeira.
Tanto quanto o livro, que coloca o pensamento sem possibilidade de manutenção e sim de versão. O registrado é definitivo e a mudança de cada idéia deve ter seu registro também.
Mas os dias de hoje tem colocado a grande poção da juventude a cada um que queira ser pra sempre: o vídeo na Internet.
O não lugar da Internet superou o teletransporte. Brincamos de ser Deus (divindade máxima que muda de nome em todo lugar!) na onipresença e na atemporalidade.
O quando deixa de fazer sentido assim que o novo e o velho perdem o seu lugar de importância. Os sentidos são movidos para onde indicamos e se perde dentro de um aespaço que pode ser capturado dentro de máquinas.
Ficamos nós aqui no momento com o tato como o único sentido que ainda nos deixa lembrar que existimos e não estamos sós.
Lembrar não faz sentido.
Saiba que vais morrer. Lembre-se que não vais morrer.

Keyna,
Agosto 2008 – depois de ver...






sábado, 26 de julho de 2008

Para não esquecer!

Funes, o Memorioso
Jorge Luis Borges

Recordo-o (não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na terra teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo do dia até o da noite, uma vida inteira. Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre. Recordo claramente a sua voz; a voz pausada, ressentida e nasal de orillero antigo, sem os assobios italianos de agora. Mais de três vezes não o vi; a última, em 1887... Parece-me muito feliz o projeto de que todos aqueles que o conheceram escrevam sobre ele; meu testemunho será por certo o mais breve e sem dúvida o mais pobre, porém não o menos imparcial do volume que vós editareis. A minha deplorável condição de argentino impedir-me-á de incorrer no ditirambo - gênero obrigatório no Uruguai; quando o tema é um uruguaio. Literato, cajetilla, porteño. Funes não disse essas palavras injuriosas, mas de um modo suficiente me consta que eu representava para ele tais desventuras. Pedro Leandro Ipuche escreveu que Funes era um precursor dos super-homens; "Um Zaratustra cimarrón e vernáculo"; não o discuto, mas não se deve esquecer que era também natural de Fray Bentos, com certas limitações incuráveis.
A minha primeira lembrança de Funes é muito clara. Vejo-o em um entardecer de Março ou Fevereiro do ano de 1884. Meu pai, nesse ano, levara-me a veranear em Fray Bentos. Voltava com meu primo Bernardo Haedo da estância de San Francisco. Voltávamos cantando, a cavalo, e essa não era a única circunstância da minha felicidade. Após um dia abafado, uma enorme tempestade cor cinza escura havia escondido o céu. Alentava-me o vento Sul, já enlouqueciam-se as árvores; eu tinha o temor (a esperança) de que nos surpreenderia em um descampado a água elemental. Apostamos uma espécie de corrida com a tempestade. Entramos em um desfiladeiro que se aprofundava entre duas veredas altíssimas de tijolo. Escurecera repentinamente; ouvi passos rápidos e quase secretos no alto; levantei os olhos e vi um rapaz que corria pela vereda estreita e esburacada como que por uma parede estreita e esburacada. Recordo a bombacha, as alpargatas, recordo o cigarro no rosto duro, contra a densa nuvem já sem limites. Bernardo gritou-lhe imprevisivelmente: Que horas são, Ireneo? Sem consultar o céu, sem deter-se, o outro respondeu: Faltam quatro minutos para as oito, jovem Bernardo Juan Francisco. A voz era aguda, zombeteira.
Sou tão distraído que o diálogo a que acabo de me referir não teria chamado a minha atenção se não o tivesse enfatizado o meu primo, a quem estimulavam (creio) certo orgulho local, e o desejo de mostrar-se indiferente à réplica tripartite do outro.
Disse-me que o rapaz do desfiladeiro era um tal Ireneo Funes, conhecido por algumas peculiaridades como a de não se dar com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio. Complementou dizendo que era filho de uma passadeira do povo, Maria Clementina Funes, e que alguns diziam que seu pai era um médico de saladeiro, um inglês O’Connor, e outros um domador ou rastreador do departamento de Salto. Vivia com a sua mãe, na curva da quinta dos Laureles.
Nos anos de 1885 e 1886 veraneamos na cidade de Montevideo. Em 1887 voltei a Fray Bentos. Perguntei, como é natural, por todos os conhecidos e, finalmente, pelo "cronométrico Funes". Responderam-me que um redomão o havia derrubado na estância de San Francisco, e que havia se tornado paralítico, sem esperança. Recordo a sensação de incômoda magia que a notícia despertou-me: a única vez que eu o vi, vínhamos a cavalo de San Francisco e ele andava em um lugar alto; o fato, na boca do meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores. Disseram-me que não se movia da cama, os olhos repousados na figueira do fundo ou em uma teia de aranha. Ao entardecer, permitia que o levassem para perto da janela. Levava a arrogância ao ponto de simular que era benéfico o golpe que o havia fulminado... Duas vezes o vi atrás da relha, que toscamente enfatizava a sua condição de eterno prisioneiro; uma, imóvel, com os olhos cerrados; outra, imóvel também, absorto na contemplação de um aromático galho de santonina.
Não sem um certo orgulho havia iniciado naquele tempo o estudo metódico do latim. A minha mala incluía o De viris illustribus de Lhamond, o Thesaurus de Quicherat, os comentários de Júlio César e um volume ímpar da Naturalis historia de Plínio, que excedia (e continua excedendo) as minhas modestas virtudes de latinista. Tudo se propaga em um povoado; Ireneo, em seu rancho das orillas, não tardou em enteirar-se da chegada desses livros anômalos. Dirigiu-me uma carta florida e cerimoniosa, na qual recordava no encontro, desditosamente fugaz, "do dia 7 de Fevereiro de 1884", ponderava os gloriosos serviços que Don Gregorio Haedo, meu tio, falecido nesse mesmo ano, "havia prestado às duas pátrias na valorosa jornada de Ituzaingó", e me solicitava o empréstimo de qualquer dos volumes, acompanhado de um dicionário "para a boa intelecção do texto original, pois todavia ignoro o latim". Prometia devolvê-los em bom estado, quase imediatamente. A letra era perfeita, muito perfilada; a ortografia, do tipo que Andrés Bello preconizou: i por y, j por g. A princípio, suspeitei naturalmente tratar-se de uma zombaria. Meus primos asseguraram que não, que eram coisas de Ireneo. Não sabia se atribuía ao atrevimento, à ignorância ou à estupidez a idéia de que o árduo latim não requeresse mais instrumento do que um dicionário; para desencorajá-lo completamente enviei-lhe o Gradus ad parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.
No dia 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires que voltasse imediatamente, pois meu pai não estava "nada bem". Deus me perdôe; o prestígio de ser o destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a toda Fray Bentos a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um estoicismo viril, talvez distraíram-me de toda a possibilidade de dor. Ao fazer a mala, notei que me faltavam o Gradus e o primeiro tomo da Naturalis historia. O "Saturno" sarpava no dia seguinte, pela manhã; essa noite, depois da janta, dirigi-me à casa de Funes. Assombrou-me que a noite fora não menos pesada que o dia.
No humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me.
Disse-me que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas sem acender a vela. Atrevessei o pátio de lajota, o pequeno corredor; cheguei ao segundo pátio. Havia uma parreira; a escuridão pareceu-me total. Ouvi prontamente a voz alta e zombeteira de Ireneo. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha das trevas) articulava com moroso deleite um discurso, ou prece, ou encantamento. Ressoavam as sílabas romanas no pátio de terra; o meu temor as tomava por indecifráveis, intermináveis; depois, no enorme diálogo dessa noite, soube que formavam o primeiro parágrafo do 24o capítulo do 7o livro da Naturalis historia. O tema desse capítulo é a memória: as últimas palavras foram ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.
Sem a menor mudança de voz, Ireneo disse-me o que se passara. Estava na cama, funmando. Parece-me que não vi o seu rosto até a aurora; creio lembrar-me da brasa momentânea do cigarro. O quarto exalava um vago odor de umidade. Sentei-me, repeti a estória do telegrama e da enfermidade de meu pai.
Chego, agora, ao ponto mais difícil do meu relato. Este (é bem verdade que já o sabe o leitor) não tem outro argumento senão esse diálogo de há já meio século. Não tratarei de reproduzir as suas palavras, irrecuperáveis agora. Prefiro resumir com veracidade as muitas coisas que me disse Ireneo. O estilo indireto é remoto e débil; eu sei que sacrifico a eficácia do meu relato; que os meus leitores imaginem os períodos entrecortados que me abrumaram essa noite.
Ireneo começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Metríadates e Eupator, que administrava a justiça dos 22 idiomas de seu império; Simónides, inventor da mnemotecnia; Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o escutado de uma só vez. Com evidente boa fé maravilhou-se de que tais casos maravilharam. Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um tolo, um desmemoriado. (Tratei de recordar-lhe a percepção exata do tempo, a sua memória de nomes próprios; não me fez caso.) Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando or ecobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis.
Num rápido olhar, nós percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compará-los na lembrança às dobras de um livro em pasta espanhola que só havia olhado uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da ação de Quebrado. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entresonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro. Disse-me: Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. Uma circunferência em um quadro-negro, um triângulo retângulo; um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado em um coxilha, com o fogo mutante e com a cinza inumerável, com as muitas faces de um morto em um grande velório. Não sei quantas estrelas via no céu.
Essas coisas me disse; nem então nem depois coloquei-as em dúvida. Naquele tempo não havia cinematógrafos nem fonógrafos; é, no entanto, verossímil e até incrível que ninguém fizera um experimento com Funes. O cérto é que vivemos postergando todo o postergável; talvez todos saibamos pronfundamente que somos imortais e que mais cedo ou mais tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.
A voz de Funes, vinda da escuridão, seguia falando.
Disse-me que em 1886 havia elaborado um sistema original de numeração e que em muito poucos dias havia ultrapassado vinte e quatro mil. Não o havia escrito, porque o pensado uma só vez já não podia desvanecer-lhe. Seu primeiro estímulo, creio, foi o descontentamento de que os trinta e três uruguaios requeressem dois signos e três palavras, em lugar de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo esse desparatado princípio aos outros números. Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez; em lugar de sete mil e catorze, A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olivar, enxofre, os rústicos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha um signo particular, uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas... Eu tratei de explicar-lhe que essa rapsódia de vozes desconexas era precisamente o contrário de um sistema de numeração. Eu lhe observei que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos "números". O Negro Timoteo a manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis me entender.
Locke, no século XVII, postulou (ou reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou alguma vez um idioma análogo, mas o desejou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambígüo. De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não havia acabo ainda de classificar todas as lembranças da infância.
Os dois projetos que foi indicado (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Nos deixam vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente.
Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.
A receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.
Então vi a face da voz que toda a noite havia falado. Ireneo tinha dezenove anos; havia nascido em 1868; pareceu-me tão monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma das minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar trejeitos inúteis.
Ireneo Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar.

Tradução de Marco Antonio Frangiotti
(in Jorge Luis Borges: Prosa Completa, Barcelona: Ed. Bruguera, 1979, vol. 1., pgs. 477-484).

segunda-feira, 21 de julho de 2008

a aula!


na sala de aula!


Upiano




Upiano, palestra sobre memória.

Muito boa!

A mãe ficou lá no fundo para aproveitar tudo sem atrapalhar ninguém. Dar de mamar e pensar...

Pegando o material para a equipe!



O que ficou de melhor:

. Funes, o Memorioso - o reencontro com esse texto foi maravilhoso! Pra quem nunca lu é uma maravilha conhecer Borges atravez desse conto!
. Roquette Pinto - o cara foi diretor de museu, O Museu Nacional, e escreveu "História Natural dos Pequeninos", só conheci um trecho, mas já estou pesquisando para ler todo. Vale a pena pra quem trabalha com educação e com museus.
. Tommaso Campanella, "Cidade do sol" - a Utopia de um religioso! As crianças aprendem artes brincando... o livro e curto e vale a pena, li numa tarde.
. Troca de contatos com outros educadores.
. Perceber que fiz o certo em vir e optar pelas ações que optei!

Cara crachá!


Esse crachá pendurado no pescoço é só dela! dá pra acreditar numa delícia dessas!

sábado, 19 de julho de 2008

Capitão de indústria

Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah
Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Eu acordo p'rá trabalhar
Eu durmo p'rá trabalhar
Eu corro p'rá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu não vejo além da fumaça que
Passa
E polui o ar
Eu nada sei
Eu não vejo além disso tudo
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas

Paralamas do sucesso